Zurique: beleza e polidez suíça

O imaginário que se tem da Suíça é o de um país onde tudo funciona perfeitamente, e que por conta de tanto preciosismo, cidades e habitantes sejam tão frios quanto o Inverno nos Alpes. Parte do que muitos levam na mente é bem verdade, a começar por Zurique, que, apesar de não ser a Capital, — que é Berna —, é o principal portão de entrada para o país do melhor chocolate, do canivete mais famoso e dos relógios mais cobiçados no mundo. Zurique causa um certo choque cultural a quem chega, principalmente de países onde o caos no trânsito e a violência urbana fazem parte do cotidiano. Nas ruas, trams, ônibus, carros, motos e bicicletas convivem em perfeita harmonia com os pedestres.

Para quem vive em uma metrópole como Campinas, é quase inimaginável que, para cruzar uma rua ou até mesmo uma avenida, basta colocar os pés na faixa de pedestres para que todos os veículos parem, dando a devida preferência a quem está a pé. No início, até parece meio caótico se deparar com uma via onde circulam distintos tipos de veículos. Porém, logo se percebe que tudo funciona como um relógio suíço. E não há tantos semáforos assim. Nos cruzamentos nevrálgicos, um guarda, no horário de pico, ajuda a manter a fluidez do tráfego. Quem está acostumado a ficar sempre de olhos muito abertos aos pertences ou a estudar a cidade para saber onde não se deve ir, não terá essas preocupações em Zurique. Além da extrema educação no trânsito e ter um dos mais altos índices de qualidade de vida, a cidade também é uma das mais seguras do mundo.

Quanto à frieza que paira sobre Zurique e seus moradores, não passa de lenda, ou é fruto do passado. É claro que ninguém que vive em uma cidade cosmopolita, sai dando bom dia a quem encontra pela rua, mas o suíço é sim, um povo bastante acolhedor e que sabe receber com elegância e atenção o seu visitante. Zurique é tão vibrante e quente quanto o sol de Verão. Por isso, o destino é, literalmente, para relaxar e aproveitar cada segundo. Se em destinos norte-americanos e até mesmo em alguns europeus, alugar um carro é providencial, em Zurique, o visitante precisa, no máximo, do transporte público, e apenas para deslocar-se entre locais mais distantes. A cidade é pequena e plana, então percorrê-la a pé e até mesmo de cadeiras de rodas é bem fácil.

A maioria dos turistas que desembarcam por lá, o fazem pela estação central, a Zürich Hauptbahnhof ou Zürich HB, que é a principal ligação entre o Centro e o aeroporto. É dali que o visitante deve traçar sua primeira peregrinação. No coração da parte velha da cidade, a estação é um ótimo ponto de partida para se ver uma série de pontos turísticos. O primeiro deles é o Rio Limmat, bem em frente ao prédio, e que corta Zurique, dividindo-a em duas: parte histórica de um lado e núcleo financeiro de outro. O rio impressiona por ter, mesmo no meio de uma região metropolitana, águas que, de tão límpidas, revelam o fundo próximo das margens. Além de limpo, o Limmat é o habitat de peixes, aves e outros animais que vivem, inclusive, no trecho urbano. A visão de cisnes singrando graciosamente as águas do rio mostra o quanto a cidade se esforça, não apenas para parecer bonita para seus moradores e visitantes, mas também pelo cuidado com o meio ambiente no qual está inserida.

Mas Zurique não é apenas beleza arquitetônica e natural. Antenada no que acontece ao seu redor, a cidade tem na Bahnhofstrasse, sua principal via, o quartel general das grifes internacionais. O turista que vai à Europa também para abastecer o guarda-roupas com novas coleções, vai encontrar na Bahnhofstrasse tudo o que precisa. Além de roupas e acessórios, joalherias e relojoarias tradicionais se instalaram ali, fazendo o momento de compras bem tranquilo e confortável. Entre uma loja e outra, o visitante deve provar os doces suíços. No número 21 da Bahnhofstrasse fica a Confiserie Sprüngli, a mais tradicional confeitaria da cidade. Chocolate suíço, tortas, entre outros confeitos típicos, fazem parte do menu. Basta escolher e degustar sem culpa.

Histórica, moderna e verde


Conhecer Zurique é caminhar pelas margens do Rio Limmat, desde a Zürich Hauptbahnhof. Seguindo pela Bahnhofstrasse pontes, chafarizes, praças, igrejas e cafés revelam uma cidade que, apesar de toda modernidade, insiste em parar no tempo. A visita deve começar pela praça Lindenhof. Construída em um ponto elevado, abrigou um forte romano no século IV. A vista privilegiada servia como antecipação a ataques estrangeiros. No lugar também havia um palácio, antiga residência real. Hoje, a praça é, antes de tudo, um mirante, do qual se aprecia as límpidas águas do Limmat e os prédios históricos, que se aglomeram desde a linha d´água até onde a vista alcança. Além disso, Lindenhof é um espaço para descansar à sombra de suas muitas e frondosas árvores, ou quem sabe, se unir aos moradores e jogar xadrez gigante.

Seguindo pela principal calçada da praça, uma ladeira leva à ruas estreitas, onde há pequenas lojas de roupas e de artesanato, além de hotéis e cafeterias charmosas e aconchegantes. Mais além fica a Fraumünster, igreja cuja torre domina o horizonte de Zurique. O templo, que foi construído originalmente como um convento, se converteu em igreja protestante evangélica e recebe milhões de turistas por abrigar um dos tesouros mais precisos da cidade. Seus vitrais foram desenhados pelos mestres Marc Chagall e Augusto Giacometti, responsáveis também pelo seu interior. A Fraumünster é uma obra de arte porém, não é possível fazer fotos ou vídeos, mesmo sem flash. Do outro lado da rua, o antigo edifício da Universidade de Zurique se transformou em ponto turístico depois de, em 1946, o então primeiro-ministro britânico Winston Churchill ler um discurso em prol da unificação da Europa.

 

Atravessando o rio fica a Grossmünster, outro imponente templo protestante. Construída como monastério, a catedral também pode ser vista de boa parte do Centro antigo. As duas torres dominam a paisagem beira-rio e seu estilo romanesco a destaca entre as edificações no entorno. Como em outras igrejas, na Grossmünster também é proibido fotografar ou filmar. Porém, é possível subir os 187 degraus até o topo e, de lá, se deslumbrar com Zurique vista da outra margem do Limmat. A visita ao topo da igreja custa 4 francos suíços, o equivalente a 3 dólares.

Zona industrial
Se o Centro antigo e seus edifícios do século XVIII são a marca internacional de Zurique, a cidade também tem outras facetas e tão interessantes quanto. Zürich West é o oposto de tudo que diz respeito ao passado mais remoto da cidade. A região abrigou fábricas responsáveis pela revolução industrial suíça. Degradada, a região se converteu em um dos mais descolados lugares para se curtir a moderna Zurique.

Galerias de arte, teatro, bares, restaurantes e parques fazem parte do roteiro que inclui o Schiffbau (www.schauspielhaus.ch/haus-service/spielstatten/schiffbau), um centro cultural com um restaurante franco-italiano, clube de jazz e três salas de teatro, que na década de 1980 funcionou com uma fábrica de barcos. O que mais surpreende em Zürich West é Im Viadukt, um viaduto desativado que passou a servir a população como uma área para caminhar ou andar de bicicleta. E para completar, o local ainda conta com lojas e bares onde é possível comprar lembrancinhas ou simplesmente relaxar tomando um café ou um drinque.

Surpreendente também é o Frau Gerolds Garten, uma mistura de horta e jardim com bares e lojas, cujas estruturas foram construídas com sucatas de containers. Na onda sustentável, o lugar é um espaço para curtir ao ar livre, principalmente nas tardes e começo das noites de Verão. O Frau Gerolds Garten tem programação artística com shows e exposições. É um espaço bem alternativo e simples, mas muito charmoso.
O visitante pode escolher uma tenda com mesa de madeira para bebericar e comer, ou lounges para bater papo enquanto degusta uma bebida. O turista que busca algo sofisticado, deve ir ao restaurante Clouds (http://clouds.ch) no 35º andar do Prime Tower, o edifício mais alto da Suíça, com seus 36 andares e 126 metros de altura. Além da bela vista panorâmica de Zurique, o bistrô tem um menu bem variado, indo do cafezinho à alta gastronomia e tudo em um ambiente com muito requinte e bom gosto.

Ao natural
Depois de percorrer a parte antiga da cidade, fazer compras e conhecer o lugares descolados, Zurique ainda guarda surpresas deslumbrantes para seus visitantes, entre elas a montanha Uetliberg. A 869 metros acima do nível do mar, a montanha é um parque de onde é possível ver toda a cidade, bem como o Lago Zurique e até mesmo os Alpes. A visita é mais proveitosa durante os meses de Verão, quando o céu está claro e limpo. O Verão também é a melhor estação do ano para percorrer as trilhas, seja a pé ou de bicicleta. Na trilha Planet, a caminhada é feita em duas horas e usa referências do sistema solar para marcar o percurso. O parque abre de segunda a domingo e conta com espaços para descansar, contemplar a natureza, a vista da cidade e comer ao ar livre. Para chegar até lá é preciso ir de trem, que demora aproximadamente uma hora do Centro e parte de várias estações. Informações em inglês no site www.uetliberg.ch/en

Outro passeio para apreciar a natureza é o Lago Zurique. Existem variados roteiros que duram de uma a quatro horas. Navegar pelo lago é passar pelos principais pontos turísticos, tendo como ponto de vista a água. É possível descer e passar o dia às margens do lago. Para retomar o passeio, basta esperar o próximo barco, que passa normalmente de uma em uma hora. Os roteiros começam sempre pela Bürkliplatz, no início da Bahnhofstrasse e os barcos vão parando em estações até a periferia da cidade, onde fazem o retorno. Durante o Verão existem cruzeiros que percorrem o rio com festas e gastronomia típicas.

Símbolos nacionais
Não há nada mais suíço que o chocolate, o canivete e o relógio. Engana-se quem pensa que os símbolos do país alpino tenham preços mais atraentes em solo suíço. Zurique, assim como toda a Suíça, é uma cidade extremamente cara, até mesmo para seus moradores. Para quem quer levar para casa um chocolate, a dica é comprar em supermercado. Marcas conhecidas internacionalmente também são caras por lá, e até mais caras do que nos freeshops. Em Zurique há pequenos e grandes mercados por toda a parte, então é fácil encontrar chocolates típicos com preços bem interessantes. O mesmo vale para canivetes e relógios. Enquanto nas lojas de grifes os preços são bem salgados, nas de rua, ou de departamento, é possível encontrar peças por valores mais em conta. Vale lembrar que a conversão pode ser feita tendo como base o euro. O franco suíço vale um pouco mais que o dólar e um pouco menos que a moeda da União Europeia.

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Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista profissional e consultor de viagens. Eduardo Gregori is a professional journalist and travel consultant.

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