Turismo é aliado para aprender um novo idioma

Sala de aula, lição, horas a fio tentando dominar um novo idioma. O aprendizado de uma língua estrangeira pode parecer muito maçante, principalmente para quem não está mais na faixa etária estudantil. Porém, existem escolas que conseguem aliar estudo e turismo. O mercado para quem deseja unir aprendizado e viagem vem se ampliando. Em 2015, o número de brasileiros que deixou o País para estudar no Exterior por uma a três semanas cresceu 22%.

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O professor Giulio Mario Bonacucina (ao centro) com alunos em Verona

Diferente de programas como o intercâmbio ou a graduação (que também vêm se expandindo entre os brasileiros, apesar da valorização do dólar), o estudo de uma língua estrangeira no país de origem vêm crescendo e se diversificando. O inglês segue na liderança entre o idioma preferido dos brasileiros, principalmente porque pode ser aprendido em diversos países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Em segundo lugar, o espanhol, também conta com boa oferta de cursos na Argentina, Chile e Espanha.

Visita a Verona

Outro ponto que difere o estudo de línguas do já bem conhecido intercâmbio é a faixa etária. Enquanto a maioria é formada por jovens ainda no início da vida estudantil e a graduação por adolescentes e pré-adultos, não há uma idade predominante para aprender outro idioma. “Temos estudantes de todas as idades e de muitos lugares do mundo”, explica Alessandra Coderoni, da Edulíngua Laboratório di Língua e Cultura Italiana, escola na cidade de San Severino, na região central da Itália.

De acordo com Alessandra, não existe idade mínima ou máxima para aprender, mas por se tratar de uma escola em outro continente, e que não pode lidar com uma criança 24 horas por dia, é recomendável começar aos 14 anos se o estudante for desacompanhado e, aos dez, caso tenha os pais ou responsáveis por perto. “Antes de tudo, é preciso saber a idade mínima que o país de origem permite a uma criança viajar desacompanhada. Se os pais não estiverem junto, podem enviar um parente ou contratar baby sitters que se responsabilizem 24 horas pela criança”, explica.

Por outro lado, o estudo na terceira idade não tem limites. “Temos alunos de 90 anos ou mais. Eles vêm para a escola porque têm uma relação com a Itália, seja por sua origem ou porque admiram a nossa cultura. Abordamos a Itália de vários aspectos e isso cria um maior interesse no aprendizado”, avalia.

Se não há barreira etária, Alessandra alerta que o estudante deve estar atento a alguns detalhes importantes para tirar o melhor proveito de cursos de línguas que aliam turismo e cultura. “Os jovens costumam vir durante o Verão, que é o período de férias na Europa. Então, quanto mais estudantes, menos chance de se ter contato com pessoas que falam a língua local. Por isso, para adultos e terceira idade, indico a Primavera e Outono, quando há um menor fluxo de jovens. Desta forma o próprio staff da escola pode estar mais próximo do aluno e ele pode se desenvolver melhor. Além disso, as viagens são mais agradáveis, sem tantos turistas disputando os mesmos lugares”, explica.

Diogo Marchiori Reghine
Diogo Marchiori Reghine

O advogado campineiro Diogo Marchiori Reghine, de 37 anos, foi à Itália para os trâmites de sua cidadania italiana e aproveitou para estudar a língua. “Aproveitei que teria de ficar no país alguns dias e me matriculei. Acho importante ter esse contato mais próximo com o italiano, pois facilita o aprendizado. Também tem as viagens e não fica só aquela coisa de sala de aula”, avalia.

O aposentado carioca José Ribamar Santos Pinheiro, de 74 anos, faz curso de italiano e francês na Universidade Federal Fluminense e decidiu se aproximar da cultura italiana passando quatro semanas em San Severino. “Achei que seria uma experiência muito boa e enriquecedora e está sendo”, avalia. Pinheiro diz que estar no país fez com que tivesse maior contato com a língua através da vivência com professores e alunos, falando apenas em italiano. “Meus colegas de escola vêm de 16 países, mas estamos todos aqui falando apenas um idioma.

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O aposentado José Ribamar e sua professora de italiano, Roberta Consoli

Isso ajuda muito”, opina. Viúvo, Pinheiro disse que aprender um novo idioma foi um incentivo extra para seguir a vida após 45 anos de casamento. “Recomendo não apenas estudar, mas qualquer tipo de atividade. A gente precisa superar e não desanimar”, avalia. Além do curso, Pinheiro aproveitou para agregar ao seu curso viagens a cidades próximas. Enquanto mantinha sua base em San Severino, o aposentado se deslocou para outras cidades como Verona, Veneza e Roma.

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Marina Gabetta

Estudante de italiano, a cantora lírica campineira Marina Gabetta, de 52 anos, passou duas semanas na Itália aperfeiçoando seu domínio da língua. “Queria melhorar, falar e cantar mais fluente, e aproveitar para conhecer a Itália. Foram 28 dias maravilhosos”, lembra. Já de volta ao Brasil, Marina comemora a empreitada. “Exigiu muito, porque você não tem como fugir do idioma, seja na sala de aula ou no supermercado. Após esta experiência, me sinto mais segura para me comunicar e cantar em italiano”, avalia. Durante os dias que passou no país europeu, além das duas semanas de aula, conheceu as cidades de Roma, Verona, Milão e Assis. “Aprimorei uma língua e fiz uma viagem cultural riquíssima. Das amizades que fiz na escola, formamos um grupo no Whatsapp com o compromisso de seguirmos nos comunicando em italiano. Recomendo e quando puder, farei outra vez”, completa.

Teoria e prática
Apesar da importância da parte teórica, cursos têm investido no que definem como uma bem-sucedida mescla com a prática. “Um curso de idiomas tem uma aula tradicional de quatro horas por dia. Dependendo do interesse do aluno, é possível transformar essa aula em duas de teoria e outras duas de prática e pode ser variados tipos de práticas”, explica Alessandra. Entre as possibilidades estão: gastronomia, história da arte, cultura e turismo. “Um exemplo é o aluno ter uma aula sobre um determinado tema e sair da sala para vivenciá-lo, como a visita a um mercado ou a um museu”, aponta. Acompanhei uma aula prática na cidade de Macerata. No dia anterior, o professor havia iniciado uma lição cuja gramática abrangia palavras facilmente encontradas em mercados. No dia seguinte, a turma se dirigiu a um mercado da cidade, fez perguntas aos vendedores e aproveitou para comprar.

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Alessandra Coderoni

Tempo
Qual o tempo ideal para estudar um idioma fora do Brasil? Para Alessandra, tudo depende do nível em que o aluno está. “Para um iniciante que fale uma língua que tenha alguma relação com o italiano, por exemplo, eu diria duas semanas. Mas o curso tradicional e mais adequado são quatro semanas”, explica. Alessandra comenta que alunos já em fases mais avançadas podem até fazer cursos rápidos, de uma semana. “Normalmente, quem não tem muito tempo disponível e quer seguir avançando no idioma, escolhe cursos mais rápidos”, explica.

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Alunos participam de atividade prática no mercado da cidade de Macerata

Integração
Além de conhecerem uma nova língua e cultura, as escolas incentivam a integração entre seus estudantes. Na Edulíngua, por exemplo, uma das noites é dedicada a uma espécie de concurso gastronômico. Estudantes de um mesmo país se reúnem para escolher um prato que melhor o represente. Os pratos são apresentados em italiano pelos próprios estudantes e julgados por um grupo de professores. Os mais elaborados são eleitos vencedores. No final, em uma grande festa todos são convidados a degustar pratos de diversas partes do mundo.

Informação: www.edulingua.it/pt/lalinguaitaliana

Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista profissional e consultor de viagens. Eduardo Gregori is a professional journalist and travel consultant.

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