Turbulências na economia não impedem viagens solidárias

Promoções de passagens, estadias em hotéis e serviços de viagens saltam a cada página acessada na internet. Nas redes sociais, os autoproclamados digital influencers tentam doutrinar seus leitores sobre como pagar cada vez menos e desfrutar mais em viagens. O cenário não é bom para as agências de turismo, que, lutam para não sucumbir a pressão de um mercado que tem rumado, principalmente para a diminuição e até a extinção do pagamento de comissões por vendas de produtos e serviços, expediente já adotado, inclusive, por muitas companhias aéreas.

Campanha do Agasalho de Campinas 2017

A instabilidade financeira, desencadeada, primeiramente durante a crise na economia mundial há quase uma década e, agravada mais recentemente no Brasil pelo caos institucionalizado após o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) e revelações de corrupção envolvendo estatais, empresas privadas, empresários e políticos, contribuem para uma coquetel preocupante, que combina uma montanha-russa cambial, temor de investidores internacionais, redução de gastos do consumidor, redução da margem de lucro e, consequentemente, queda de vendas.

Apesar de enfrentaram um momento complicado em que buscam novas formas de se rentabilizar, algumas empresas, cujo negócio é movido pelo turismo, não perdem de vista que, mesmo em tempos nebulosos, é possível ajudar ao próximo e ainda inspirar seus colaboradores a fazer o mesmo. A Costa Brava Viagens e Eventos, empresa fundada em Campinas há quase três décadas trilha este caminho.

Além de se engajar anualmente em ações sociais, como a Campanha do Agasalho, promovida pela Prefeitura de Campinas, a empresa colabora com outras causas, como o projeto Raquete Para Todos. Em 2016, a agência ajudou a realizar o sonho de Giovana Ferreira, de 11 anos, e Mariana Carvalho, de 9 anos. As duas, que participaram do projeto, foram selecionadas entre 200 crianças carentes para participar da Copa Guga Kuerten 2016, um dos maiores torneios de tênis infantojuvenis da América Latina.

De acordo com Pedro Stucchi, administrador do Raquete Para Todos, desde 2007 o projeto promove trabalho social e de inclusão através do esporte na cidade de Valinhos. Em dez anos, o Raquete Para Todos auxiliou mais de 1,5 mil crianças. Segundo Stucchi, o objetivo é facilitar o acesso da comunidade a uma pratica de atividade física saudável, trabalhando com todos que gostam de esporte, entre crianças, adultos e pessoas com deficiência. “Para nós da Costa Brava é muito emocionante poder fazer parte deste trabalho. Somos testemunhas do esforço do Pedro e de todos os envolvidos em auxiliar a inclusão através do tênis. São atitudes como estas que nos enchem de orgulho e nos fazem acreditar em um futuro melhor para nossos filhos”, afirma Carlos Schwartzmann, diretor de marketing e Vendas da Costa Brava.

Giovana (à esq.), Mariana e Pedro Stucchi: meninas participaram da Copa Guga Kuerten 2016. Foto: divulgação

Outra causa apoiada pela Costa Brava é a da Associação Por 1 Sorriso. A entidade sem fins lucrativos, criada pelos dentistas Felipe Rossi e Marina Bello, iniciou, em 2015, um trabalho de orientação de higiene bucal, distribuição de escovas e recreação em ações pontuais em instituições e projetos já existentes.

Atualmente, a ONG atua em comunidades carentes e com pouco acesso à assistência, como populações ribeirinhas e indígenas, quilombolas, moradores do sertão nordestino, povoados em condição de miséria no continente africano e comunidades urbanas carentes. A atuação da entidade se dá por meio de programas educativos, preventivos e interventivos relacionados à odontologia, medicina e nutrição. Além de saúde, melhora na qualidade de vida e bem-estar, a ONG trata de seus atendidos com carinho. O objetivo, de acordo com suas diretrizes, é promover saúde com qualidade.

Criança aprende a escovar os dentes com orientação de voluntária da ONG Por 1 Sorriso, durante ação na Ilha de Arapiranga, no Pará, em junho deste ano. Foto: divulgação

Em sua mais recente atuação, em junho deste ano, a ONG levou 21 pessoas para a Ilha de Arapiranga, no Pará, em plena Floresta Amazônica. De acordo com Taís Pacheco, Coordenadora de Comunicação e Eventos da Por 1 Sorriso, apenas nesta ação foram 360 atendimentos médicos, 141 atendimentos e outros 362 procedimentos odontológicos, num total de 501 pessoas atendidas. Promovendo entre seis a sete ações por ano, desde sua fundação,  a ONG já atendeu quase 2 mil pessoas.

Criança participa de ação da ONG Por 1 Sorriso

Para Thais, o suporte da iniciativa privada é indispensável para tornar possível o deslocamento dos voluntários até as comunidades onde atua. “O apoio de empresas privadas é fundamental para que toda a estrutura seja viabilizada. A Costa Brava tem nos ajudado demais com a logística, pois nossos voluntários estão espalhados pelo Brasil inteiro e contar com parceiros torna tudo isso realidade”, avalia.

Gestão humanizada

Marina Schwartzmann: “ajudar por ajudar”. Foto: Eduardo Gregori

Marina Schwartzmann levou para a Costa Brava sua expertise em lidar com o próximo. Quando não está se capacitando em cursos, ou viajando em roteiros que promovem o bem-estar social, a gestora do departamento de gente trabalha para manter as portas da empresa abertas para projetos sociais como o da ONG Por 1 Sorriso. “Conheci o Felipe Rossi em um curso de desenvolvimento humano e autoconhecimento e ficamos muito amigos. O Felipe acabou saindo para focar sua atenção à ONG, mas a amizade continuou e ele pediu meu apoio para ajudar na logística e organização das viagens”, explica.

Para Marina, não importa o nicho de mercado ou a especialidade  de uma empresa quando a meta é ajudar o próximo.  Sempre haverá uma maneira de contribuir. “Como trabalhamos com viagens, ajudar os voluntários a chegarem no local das missões que a ONG organiza foi a forma que encontrei de poder nos fazer presente de alguma forma, de cooperar com os sorrisos que eles conseguem cuidar”, explica.

Marina acredita que o papel de uma empresa também é o de contribuir para que direitos básicos sejam garantidos a todas as pessoas, principalmente para aquelas que vivem à margem da sociedade e em condição de vulnerabilidade. “Saber que estamos cooperando para que inúmeras pessoas que são abandonadas e não possuem cuidados mínimos de saúde possam receber esses cuidados é o que ganhamos. Não queremos nenhum reconhecimento, prêmio ou dinheiro com isso, mas sim, poder ajudar por ajudar. Por fazer o bem a alguém. Se conseguirmos esse objetivo, estamos todos ganhando”, avalia.

Inspiração

Além de pensar em ações dentro e fora da empresa, Marina ainda consegue inspirar os colaboradores da Costa Brava a se engajarem com ela. “Montamos o Comitê Social, no qual os colaboradores que se voluntariaram e que compartilham desse propósito comigo, ajudam também, cada um dentro da sua alçada, fazendo o que podem e da melhor forma que podem”, afirma. 

Para a consultora de viagens Danielle Silva, mesmo que um dia corrido de trabalho não lhe permita total dedicação, o importante é, de alguma maneira, participar. “Acho importante, nem que seja uma pequena participação. O que vale é a intenção de querer ajudar e doar um pouquinho do nosso tempo”, avalia. Coube a Danielle fazer reservas e emitir bilhetes aéreos para membros da Por 1 Sorriso em viagem para o Pará.

Danielle Silva: “O que vale é a intenção de querer ajudar e doar um pouquinho do nosso tempo”. Foto: Eduardo Gregori

Além de se sentir bem como pessoa, Danielle diz que ações sociais realizadas e apoiadas por empresas contribuem para a valorização do trabalhador e do ambiente corporativo. “Uma andorinha só não faz verão. Se toda empresa privada atuasse em benefício dos que mais precisam, o mundo seria bem melhor”, opina.

Érika Rodrigues também participou de uma das ações da Por 1 Sorriso. A consultora de viagens ajudou na organização de planilhas, cadastros, envio de bilhetes aéreos aos voluntários e conferencias de documentos dos passageiros. Para Érika, ajudar pessoas e contribuir com projetos sociais é importante. “Me sinto orgulhosa. É glorioso ajudar a quem precisa, e com certeza vou continuar ajudando sempre que possível”, explica.

Érika Rodrigues: É glorioso ajudar a quem precisa, e com certeza vou continuar sempre que possível”. Foto: Eduardo Gregori

Érika acredita que, tanto pessoas, quanto a iniciativa privada, devem seguir no caminho do bem. “É importante mostrar para a sociedade que todos podem ajudar, independente de que forma. Seja com alimentos, roupas, dinheiro, emissão de bilhetes, medicação, o que seja. Uma pequena ajuda vem sempre com um grande benefício. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa equipe e muito feliz de poder contribuir com essas ações”, avalia.

Corrente do bem

Crianças e a mãe, Amani, chegam no Aeroporto de Guarulhos. Foto: Carlos Sousa Ramos/Agência Anhanguera

A Costa Brava também contribuiu com uma corrente solidária que envolveu uma série de pessoas em Campinas, que se mobilizaram para ajudar uma família síria a viajar ao Brasil para fugir da guerra. Um consultor da agência conseguiu emitir as passagens com milhas doadas pela dentista Ana Christina Bernardes de Souza, além de garantir que mãe e quatro filhos viajassem lado a lado. 

Fabiana Affonso: “Me fez enxergar meus problemas com outros olhos”. Foto: divulgação

A família, que havia conseguido chegar em Istambul, na Turquia, desembarcou no dia 3 de julho no Aeroporto de Guarulhos, na capital paulista e seguiu para Campinas, onde encontrou o pai e pretende recomeçar a vida. A história foi contada pela jornalista Alenita de Jesus, no Correio Popular.  Nabil Esdrees, sírio que está em Campinas há mais cinco meses, lutava desesperadamente para tirar da Síria os quatro filhos e a mulher. Com a ajuda da corrente que se formou na cidade, Esdrees conseguiu trazer ao Brasil os filhos Mohamad, de 9 anos, Omar, 8 anos, Ahmad, 6 anos, Hala, de 3 anos, e a mulher Amani, de 32.

O sabor da gratidão
Fabiana Affonso, líder de atendimento corporativo da Costa Brava abraçou outra causa solidária. Fabiana participa com o marido do McDia Feliz, que arrecada doações para a Associação Pais e Amigos de Crianças com Câncer e Hemopatias (APACC), hoje chamada de Casa Ronald Campinas.

Neste ano, a campanha, que arrecada 50% das vendas dos lanches da rede de fast food McDonald´s, acontece no dia 26 de agosto. Para Fabiana, participar de uma ação solidária lhe trouxe gratidão como pessoa.  “O trabalho voluntário começou com meu marido, e em seguida eu abracei essa causa junto com ele. As famílias que têm um filho com câncer sofrem muito, não só com a doença, mas com a falta de dinheiro para ficar junto com eles e arcar com as despesas em seus tratamentos. Gostei muito da proposta dessa instituição. Me fez enxergar meus problemas com outros olhos, e me faz ser uma pessoa mais grata”, avalia.

 

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Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista profissional e consultor de viagens. Eduardo Gregori is a professional journalist and travel consultant.

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