Navios deixam o Brasil para navegar na China

O alerta é antigo: operações caras cobradas pelos portos brasileiros, muitos impostos e, principalmente, falta de infraestrutura e investimentos. O não cumprimento de promessas do governo em melhorar os portos do País e o agravamento da crise econômica acabaram por decretar o declínio de um mercado que só cresce no Exterior: os cruzeiros. Enquanto lá fora as armadoras projetam crescimento para os próximos anos, com um salto de 24 milhões de passageiros este ano para mais de 25 milhões em 2017, o Brasil vem se tornando cada vez menos interessante. O setor, que já trouxe ao País em anos anteriores mais de 20 embarcações, opera nesta temporada com a metade da frota, número que será reduzido a seis no ano que vem. “O alto custo da operação no Brasil, os inúmeros impostos e a queda no número de passageiros em decorrência da crise, estão fazendo com que as companhias prefiram abandonar o Brasil para operar em países mais rentáveis”, explica Marcos Ferraz, presidente da Clia Abremar Brasil, associação que reúne empresas de cruzeiros.

Entre as armadoras que não mais passarão pelo Brasil no próximo ano está a Royal Caribbean. Em um comunicado divulgado no final do ano passado, a empresa, que é dona dos maiores navios do mundo, afirmou que a decisão foi tomada por conta dos altos custos operacionais e pelo crescimento dos mercados na Ásia e na Oceania. Regiões como essas têm feito inúmeros investimentos de infraestrutura e apresentado cenários mais competitivos para a atuação no ramo. A migração vem sendo monitorada pela Clia Abremar Brasil. “A China tem mais de dois milhões de cruzeiristas, com potencial para crescer rapidamente outro 1 milhão. Em comparação, no Brasil teremos 550 mil este ano”, enumera. Com a saída da Royal Caribbean, o Brasil passará a contar com a Costa Cruzeiros, a MSC e a Pullman. Ferraz acredita que, para reverter esse quadro, é preciso, efetivamente investir em infraestrutura portuária, regulação do setor, redução de impostos e estímulo às viagens de navio.

Cuba
Outro destino que vem “roubando” embarcações do Brasil é Cuba. Após a retomada das relações diplomáticas entre Estados Unidos e o país caribenho, o turismo de cruzeiros vem registrando forte alta. Apenas entre os meses de janeiro e maio de 2015, Cuba recebeu 174 visitas de navios e transportou mais de 62 mil passageiros. Comparado ao Brasil, em toda temporada, o País terá apenas 82 escalas (visitas). A armadora italiana MSC começou a operar na ilha em dezembro e transformou Havana em seu porto base. Nos Estados Unidos, a maior empresa de cruzeiros do mundo, a Carnival, anunciou que recebeu autorização para começar a operar em Cuba, o que espera começar em maio deste ano.

Setor de turismo faz apelo ao governo federal
Entidades do setor turístico, entre elas a Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) e a Associação Brasileira de Agências de Viagens(Abav), divulgaram na última sexta-feira um apelo ao governo. De acordo com o documento, “parcela expressiva do setor turístico está na iminência de sucumbir, caso a administração federal não dê celeridade à reversão da incidência de 25% para 6% de tributos sobre valores pagos, creditados, entregues, empregados ou remetidos para pessoa física ou jurídica residente no Exterior, destinados à cobertura de gastos pessoais, de pessoas físicas residentes no País, em viagens de turismo, negócios, serviço, treinamento ou missões oficiais”.

Ainda de acordo com o documento enviado à presidente Dilma Rousseff, “O Brasil verá seus cidadãos retirados do mapa do turismo internacional e poderá sofrer retaliação dos demais países, onerando as viagens de seus residentes a nosso País”. As entidades alertam que, “caso não for cumprido o acordo firmado pelo Ministério da Fazenda e com a Receita Federal, o mercado que movimentou cerca de 492,4 bilhões de reais, em 2014, segundo dados da WTTC (9,6% do PIB nacional), direta e indiretamente, ficará sujeito a desastrosos impactos socioeconômicos à economia nacional, entre eles: R$ 20 bilhões de retração na economia nacional; eliminação de 185 mil vagas, diretas, e 430 mil, indiretas, no mercado de trabalho e ainda R$ 4,1 bilhões, de perda estimada de salários, diante da redução de empregos.

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Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista profissional e consultor de viagens. Eduardo Gregori is a professional journalist and travel consultant.

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