Buenos Aires de verdade

A capital da Argentina está bem ali, a pouco mais de duas horas de voo de São Paulo. É uma velha e bem conhecida nossa, que amamos seu doce de leite, mas odiamos seu futebol e, principalmente seus ídolos do tapete verde. E nessa relação bem latina de amor e ódio, Buenos Aires tem sido, pelo menos nos últimos 10 anos, o principal destino de quem sai do Brasil para uma viagem ao Exterior.  Apesar de ser a preferida dos brasileiros, o roteiro não muda muito. Se é Inverno, Buenos Aires é um ponto de parada para Bariloche, a famosa e supervisitada estação de esqui. Se é Verão, a cidade, apesar do gigantismo, é aproveitada apenas em seus roteiros mais básicos, do tipo: show de tango, bairro da Recoleta, rua Florida, Casa Rosada, Café Tortoni, Teatro Colón e Puerto Madero.

Bem, este deve ser um roteiro para quem vai pela primeira vez à cidade porque Buenos Aires é muito mais que isso. Para começar, a cidade tem uma certa magia no ar. A mescla de um apinhado de arranha-céus e grandes áreas verdes dão à “la ciudad de la furia”, como chamada pela extinta banda de rock Soda Stereo, um ar que mescla o charme europeu e o calor dos trópicos. E mesmo como epicentro de um país que luta para sair de uma crise econômica profunda e  judiada pela falta de dinheiro, Buenos Aires ainda sustenta sua aura de Paris da América do Sul. Sempre que vou, começo meu tour pelos cemitérios. Bem, eu sou apaixonado pela figura de Eva Perón quando lá estou, vou lhe fazer uma visita. Nada a ver com ideais políticos, mas a imagem de Evita como mulher me fascina. Mas ela está enterrada em um lugar óbvio para os visitantes, o Cemitério da Recoleta.

Túmulo de Carlos Gardel, no Cementerio de la Chacarita
Túmulo de Carlos Gardel, no Cementerio de la Chacarita

Gosto de ir a cemitérios porque eles mostram muito da história das cidades. O meu preferido em Buenos Aires é o Cementerio de la Chacarita, www.cementeriochacarita.com.ar. O local é um verdadeiro museu a céu aberto, onde estão sepultadas pessoas que marcaram profundamente a história da Argentina, como Jorge Newbery, o primeiro aviador a cruzar a Cordilheira dos Andes de avião entre a Argentina e o Chile. Se você desembarcou no Aeroparque, repare que o nome do aeroporto lhe rende homenagens. Em Chacarita também fica o túmulo de Carlos Gardel, artista que segue até hoje como a maior expressão do tango argentino. Mais recente também está neste cemitério o corpo de Gustavo Cerati, um dos maiores cantores, guitarristas, compositores e pilares do rock argentino. Ou seja, uma visita ao lugar é quase que obrigatório, principalmente para quem quer fugir do comum.

Hipódromo de Palermo
Hipódromo de Palermo

Outra preciosidade para ver em Buenos Aires é o Hipódromo Argentino de Palermo. A visita será mais proveitosa se feita em dia de corrida. Os argentinos adoram cavalos e corridas, então, assistir a uma delas é uma maneira ideal para se estar mais próximo de uma das paixões dos portenhos. As informações sobre horários e preços estão no site  www.palermo.com.ar.  Se você é do tipo de turista que aprecia museus, então a boa notícia é que Buenos Aires é conhecida justamente por ser a cidade com maior número deles no mundo. Além de cemitérios, museus também contribuem na narração da história de cidades e civilizações. Entre os mais relevantes está o Museo Nacional de Arte Decorativo . O espaço funciona no Palácio Errázuriz. A mansão em estilo Luis XVI — considerada uma das mais elegantes do país — abriga a coleção de arte de seus antigos proprietários, o diplomata chileno Matías Errázuriz e sua mulher.

Roupas de Eva Perón, no Museo Evita
Roupas de Eva Perón, no Museo Evita

Como fã de Evita não posso deixar de mencionar o Museo Evita. Dedicado à Eva Perón, que está localizado em um antigo e pequeno hotel inaugurado cinquenta anos depois da morte da ex-primeira dama argentina. Conta com treze salas de exposições permanecentes com peças que vão do guarda-roupas da primeira dama, filmes oficiais em que ela aparece e peças da Fundação Eva Perón, que ela criou para ajudar pobres quando era esposa do presidente Juan Perón. Outro museu preciso é o Palacio de las Aguas Corrientes. O edifício foi originalmente construído como parte de um plano sanitário para a cidade e atualmente abriga o Museu da Água e da História Sanitária, onde é possível conhecer um pouco mais sobre a história desse monumento.

Pernas e muita história

Talvez não exista outro lugar com tantas atrações para ver como a Avenida Sarmiento. Esteja descansado, porque o caminho é longo e se prepare tanto se for frio, com um bom agasalho, ou com água se estiver no Verão. Parta da Plaza Italia, só ali você pode conhecer o belíssimo e singelo Jardim Botânico. Para quem gosta de gatos, o lugar é uma espécie de santuário para estes animais. Há vários que circulam livremente durante o dia inteiro. Isso sem contar as espécies que ali habitam, entre belíssimas flores e plantas. Do outro lado fica o Jardim Zoológico, é um passeio meio óbvio em qualquer cidade, mas já que você está ali, porque não? A visita vale, principalmente pela bela arquitetura de um dos mais antigos zoológicos do mundo.

Jardim Botânico
Jardim Botânico

Lujan
E por falar em zoológico, descendo pela avenida Sarmiento fica o ônibus que vai até o Zoo Lujan, nos arredores da cidade. Existem transfers desde o Obelisco, mas se quiser camelar até este zoo exótico, há que pegar o ônibus da linha 57. O trajeto demora cerca de uma hora e é bom lembrar que esta viagem é complicada, principalmente em dias de feriados, quando as bilheterias não estão abertas. Os ônibus não aceitam dinheiro, apenas cartão próprio de transporte. Sendo assim, compre antes o bilhete ou faça como eu, encontre uma alma amiga que tenha cartão com crédito suficiente para ir e voltar. O zoo vale muito a vista, principalmente por proporcionar experiências bem próximas aos animais, mas Lujan é um assunto para outro post. para conhecer o zoo acesse http://www.zoolujan.com

Leão no Zoo Lujan
Leão no Zoo Lujan

Seguindo pela avenida nos deparamos com o Monumento a los Españoles, que oficialmente se chama La Carta Magna y las Cuatro Regiones Argentinas. Trata-se de uma belíssima obra em mármore carrara do escultor espanhol Agustín Querol. A obra foi doada à cidade pela comunidade espanhola em Buenos Aires e celebra o centenário da revolução de maio.

Los Espanholes
Los Espanholes

Outro lugar preciso para se visitar nesta caminhada é o Rosedal.  Ele fica no Parque Tres de Febrero e abriga cerca de 18 mil rosas, o que o torna o mais belo entre todos da cidade. Além das flores, o Rosedal guarda obras de arte com bustos de poetas e escritores. Um lugar inesquecível. No mesmo parque fica o Jardim Japonês, uma obra-prima, parceria entre homem e natureza. Singelo, como a cultura japonesa é, o jardim é um deslumbre, principalmente no Verão, quando o verde das plantas e o colorido das flores estão em seu maior esplendor.

El Rosedal
El Rosedal

No fim da caminhada, bem próximo da margem do Rio da Prata e do Aeroparque, fica o Planetário Galileo Galilei. O edifício em forma de disco voador teve como inspiração o planeta Saturno. À noite, completamente iluminado, a imagem do museu se transforma em uma espaçonave prestes a decolar.

Planetário Galileo Galilei
Planetário Galileo Galilei

Livros

O turista que aprecia leitura vai encontrar lugares pra lá de charmosos para visitar em Buenos Aires., entre eles a Eterna Cadencia, onde encontram-se diversos títulos que não são vendidos nas livrarias comerciais. Do lado de fora, a Eterna Cadencia parece uma típica casa do bairro de Palermo, mas na verdade é uma espécie de centro cultural, com restaurante e cafeteria. Dizem que Buenos Aires lembra muito Paris, e alguns detalhes ficam mais evidentes em La Isla – Recoleta (zona delimitada pelas avenidas Del Libertador, Las Heras e pelas ruas Agote e Agüero). Sem dúvida, um dos lugares mais “parisienses” da cidade. La isla, como é chamada pelos portenhos, foi desenhada pelo urbanista francês Joseph Bouvard, diretor de obras públicas de Paris. Suas ruas terminam em escadas decoradas, que a transformam em um verdadeiro reduto francês. Na mesma zona está o localizado o edifício da Biblioteca Nacional e o Parque Mitre.

Eterna Cadencia

Outro lugar para ler, comer e beber é Los Octubres. Trata-se de um espaço gastronômico e cultural ainda pouco conhecido do turista. Além do restaurante, abriga uma livraria especializada em história argentina e uma loja temática com forte presença da iconografia de Evita e Perón. É possível encontrar objetos de desenho, indumentária e réplicas de joias usadas por Evita.

Com mostro neste post, Buenos Aires tem muito mais a oferecer do que tango e a tradicional parrillada. Para ir além nesta cidade maravilhosa é preciso apenas disposição.

Buen viaje!

 

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Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista profissional e consultor de viagens. Eduardo Gregori is a professional journalist and travel consultant.

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