Austrália nua e crua

Pense na Austrália. Bem, provavelmente você vai se lembrar apenas de cangurus e coalas. Puxe mais pela mente, talvez venha à cabeça o filme Priscilla, A Rainha do Deserto ou a emblemática formação rochosa do Outback. Quem gosta de música e cinema pode ir um pouco além: Kylie Minogue e Mel Gibson são artistas que levam o nome da Austrália mundo afora. Mas será que a Austrália é só isso? Resumida em referências do main stream e do consciente coletivo? Será que a Austrália é só a Opera House de Sydney, ou a Harbour Bridge cintilando todos os anos no Réveillon? Absolutamente, não. E não adianta visitar o país para saber exatamente como ele é, que sentimento seu povo tem sem a lente da polidez social. Diria eu, sem um tipo de instagram coletivo em que abusamos de filtros para mostrar sempre o melhor de nós.

Trio de drag queens do filme Priscilla, a Rainha do Deserto, de 1994
Trio de drag queens do filme Priscilla, a Rainha do Deserto, de 1994

 

Eu já estive na Austrália duas vezes e conheci tudo que um turista possa conhecer. Da primeira me embrenhei mais em minha busca pela realidade, usando muito transporte público, visitando bairros comuns e até na periferia e indo aos mercados populares. Minha segunda vez foi uma viagem oficial, então você vê tudo de uma perspectiva mais institucional, mas mesmo assim, ainda pude conhecer um pouco mais dos aborígines. Eles sim, podem contar a história desse país sem o verniz colonial Porém, mesmo com estas duas experiências não tive a oportunidade de mergulhar de cabeça naquele país do outro lado do mundo. Entender tudo é muito difícil, demanda tempo e vivência. Creio que só quem imigra e busca pela identidade de uma nação pode de fato encontra-la.

Artista aborígine do Waradah Aboriginal Centre em Blue Mountains
Artista aborígine do Waradah Aboriginal Centre em Blue Mountains

Mas qual não foi minha surpresa em saber que o governo australiano estava trazendo para o Brasil um festival que, para mim, seria a princípio cultural. Hoje vejo esta ação na minha vida como um tsunami que vaga lento pelo oceano e quando chega invade tudo. A tempestade começou para mim em Brisbane, quando conheci Emma, vocalista da Black Arm Band, uma banda que se dedica a “acordar” as línguas aborígines através da música. Emma me presenteou com um disco e eu, com todos meus compromissos, e sem a menor sensibilidade, o guardei na mala. Quando cheguei de volta ao Brasil, ao desfazer minha bagagem, encontrei o cartão de Emma. Liguei meu computador e busquei “Black Arm Band” no Youtube. Estava lá, Dirtsong, o álbum que ela me dera em Brisbane. Ouvi, ouvi e passei aquele dia vendo Black Arm Band na tela do computador. Lembrei do CD/DVD e foram mais horas e horas de contemplação.

Nicole Lampton, Deline Briscoe, Shellie Morris e a Black Arm Band no Sesc Pompeia, em São Paulo

Com o festival chegando, decidi entrevistar Emma e esperei muito que ela viesse ao Brasil, mas não veio. Mas foi igualmente bem representada por Nicole Lampton, Deline Briscoe, Shellie Morris e todos os músicos do grupo. Eu moro em Campinas, a quase 100km de São Paulo e por isso é difícil ir a muitos eventos na capital, mas quando se aproximou a data do show não tive a menor dúvida em pegar o carro e seguir para o Sesc Pompeia. A noite fria não estava convidativa, mas eles estariam ali, mostrando uma Austrália que eu queria conhecer melhor.

Não consigo expressar o quanto o show fez minha cabeça girar. Resumi em um e-mail para Emma que eu não havia entendido nenhuma palavra ali cantada em 11 línguas aborígines, mas havia compreendido tudo… o sofrimento, a alegria, a raiva, a tristeza, o medo e a esperança.. esperança por uma Austrália unida entre negros, brancos e índios … Fiquei em choque ao perceber que a mensagem, como Emma havia me dito, fora transmitida. Naquele dia eu ia sair para curtir a noite de São Paulo mas não consegui. Entrei no meu carro em silêncio e só parei em casa, resignado com aquela emoção.

A vastidão azul das Blue Mountains
A vastidão azul das Blue Mountains

Depois veio a Campinas o duo Grygorian Brothers, outra lambada. Que preciosidade, virtuosismo e que respeito eles têm pela música brasileira, que carinho e admiração pela plateia. Foi a oportunidade de ver uma outra Austrália, culta, do homem urbano, estudado. Outra experiência inesquecível.

Então fui assistir ao longa-metragem Último Táxi Para Darwin, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, que integra a mostra de filmes Jornadas Icônicas que a Austrália promove em São Paulo, Rio e Brasília. O filme é muito sensível e toca em temas tabu, como a posição dos aborígines na sociedade australiana, preconceito, medos, amor, desamor etc.

Cena de Último Táxi para Darwin
Cena de Último Táxi para Darwin

O longa-metragem é como um tapa na cara, do tipo que te fala: acorda! Esta é a verdadeira Austrália. Ele te mostra que aquele país lá longe não é só Sydney e suas luzes brilhantes, onde tudo é lindo e todo mundo é feliz.
  Na imensidão da Austrália habitam pessoas como eu, como você, com suas fragilidades, seus medos, seus dramas, seus encontros e desencontros. Um cena mostra um canguru morto na estrada, provavelmente atropelado. Uma passagem dura para um turista como eu, que só vê este animal fascinante saltitando pelos zoos e parques.

Na minha busca pela verdadeira Austrália, que eu julgava ser impossível, descobri no Austrália Now esta possibilidade. A cada apresentação, a cada artista é como se eu encaixasse uma peça de um quebra-cabeças que vai lentamente desenhando o mapa da Austrália na minha cabeça, mente e coração.

O outback, formação rochosa símbolo da Austrália
O outback, formação rochosa símbolo da Austrália

Talvez este seja o maior legado que o Australia Now vai deixar para o seu público: enxergar a Austrália como ela é, sem maquiagens e nem truques. Ela está ali, nua e crua para quem quiser ver. O festival continua e tem muitas atrações pela frente. Se você quiser saber a programação, acesse o site  http://australianow2016.com

Quem está em Campinas, ainda tem a chance de ver duas grande atrações, ambas gratuitas.

Gravity and Other Myths

Gravity and Other Myths faz apresentação neste sábado, 14, no Sesi Campinas

Pela primeira vez no Brasil, o grupo de acrobatas de uma das mais premiadas companhias de circo da Austrália, testa seus limites físicos no espetáculo A Simple Space, performance sem artificialidades, frenética, autêntica e repleta de bom humor. Na performance não há elementos estéticos teatrais como maquiagem, cenários ou iluminação elaborada, e a plateia, posicionada próxima à ação, sente o calor, vê o suor e escuta cada respiração dos artistas em cena. Sustentados somente por sua força e corpos, os acrobatas mostram que fragilidade e erro são parte de sua realidade.

Gravity and Other Myths é um coletivo de respeitados e premiados acrobatas australianos. A companhia cria seus trabalhos acrobáticos para turnês, festivais, eventos culturais e corporativos. Formado em 2009 em Adelaide, Sul da Austrália, o grupo cria e dirige seus próprios trabalhos, dando ênfase à sinceridade das performances. Distancia-se do circo tradicional e dos padrões teatrais, apresentando a fusão de um teatro físico-acrobático simples e efetivo. Gravity and Other Myths encontrou boa repercussão internacional a partir do espetáculo A Simple Space, em turnê pelo mundo desde sua concepção em 2013. A apresentação em Campinas acontece neste sábado, dia 14, às 20h.

Russel Morris

russel-morris
Russel Morris toca no dia 21 no Sesi Campinas

O artista é um dos maiores expoentes do rock e do blues australianos. Ganhador de discos de ouro e platina, o cantor apresenta seu mais recente trabalho Red Dirt – Red Heart, com canções que celebram os mais de 40 mil anos da história da Austrália, com a essência do blues e a vitalidade de um astro com 50 anos de carreira. O show de Russel em Campinas acontece no dia 21, às 20h, encerrando a programação do Australia Now na cidade.

Serviço
O que: Australia Now em Campinas
Quando: Dias 14, às 20h: Gravity and Other Myths e 21, às 20h: Russel Morris
Onde: Sesi Amoreiras, Avenida das Amoreiras, 450
Quanto: Entrada franca

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Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista profissional especializado em turismo. Eduardo Gregori is a professional tourism journalist

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