A bucólica Itália de San Severino

Vista de San Severino

Minha família paterna é italiana, mas nunca me interessei muito em buscar a parte dela que ficou no Velho Continente. Na verdade, nesses anos que viajo pelo mundo, a bella Italia não havia me cativado de fato, ainda. Em muitas das minhas andanças, prefiro escapar do óbvio, pois acho mais intrigante e sedutor. E não podia ser diferente dessa vez. Apesar de estar indo para a Itália, decidi conhecer um lado não muito explorado pelos brasileiros e sem os milhares de turistas que se acotovelam em busca da melhor foto como em Roma, Verona ou Veneza. Escolhi Marche, região no centro do país, que, infelizmente também sofreu com o terremoto do último 24 de agosto, mas que resistiu bravamente.

Aeroporto de Falconara

Minha primeira impressão do país foi bem tropical. Em pleno Verão europeu, sobrevoando o Mar Adriático em direção ao minúsculo aeroporto de Falconara, na cidade de Ancona, senti estar sobre o Caribe. O sol a pino e o azul turquesa da água convidavam para ficar por ali mesmo, estirado na areia. Essa sensação só aumentou com o bafo que entrou na aeronave após a aterrissagem: quase 40 graus. Mas queria ir para o interior da Itália, certo? Então, andiamo!

Vista do Mar Adriático a partir do Santuário da Santa Casa de Loreto

Escolhi voar para San Severino desembarcando em Ancona, a 77 quilômetros de distância, mas o destino também se conecta com a capital e outros pontos na Europa através de trem e ônibus, então é só escolher a opção que mais lhe convém. Peguei um carro e em pouco mais de uma hora, já estava na cidade. Aliás, as estradas que cortam a região de Marche são muito boas, tranquilas, modernas e com infraestrutura para abastecimento e alimentação. Uma dica: nunca peça o café para acompanhar uma refeição ou um lanche. A Itália leva a sério a função do café de ser apreciado sozinho. Então, se alguém torcer o bico se você pedir um cafezinho com um sanduíche (como eu), entenda o recado.

Santuário da Santa Casa de Loreto

Antes de desembarcar em San Severino, é preciso visitar uma obra-prima sacra: o Santuário da Santa Casa de Loreto. O lugar de peregrinação para os católicos fica na cidadezinha de Loreto e é considerado o mais importante da Itália. Foi erguido perto da casa onde, segundo conta a lenda, o arcanjo Gabriel anunciou à Virgem Maria a maternidade e onde teria vivido a Sagrada Família.

A construção teria sido transportada até a região por anjos. Não importa a religião e nem a crença de como a casa foi parar nesse local. O santuário é adornado por centenas de peças em mármore, pinturas e representações que o transformam em um verdadeiro museu para ser simplesmente admirado. Do lado de fora outra esplendorosa visão do vale que se estende até o Mar Adriático.

Cidade perdida?
Cheguei em San Severino ainda no início da tarde. A primeira impressão foi inesquecível: ninguém nas ruas e tudo fechado. Pensei: onde estaria me enfiando para passar as férias? Para onde foi todo mundo? Mistério revelado às 16h30, quando as ruas ganharam movimento e o comércio abriu. O morador de San Severino preza por uma revigorante sesta, indo descansar às 12h30 retornando às 16h30. É engraçado para quem chega de uma cidade como Campinas, em que o comércio só fecha às 18h no Centro e às 22h nos shoppings. Esqueça o mundo lá fora, porque em San Severino tudo para no momento de descanso. E quer saber? Certo eles. Nós é que vivemos correndo e depois dessa experiência me questiono: pra quê?

Piazza del Popolo

San Severino é pequena. Tem pouco mais de 12 mil habitantes e está rodeada de cidadezinhas tão charmosas quanto ela. Seus moradores são extremamente simpáticos e, como toda cidade pequena, a vida social se passa na praça principal, no caso: a Praça do Povo, ou Piazza del Popolo. De crianças jogando bola ou pedalando, a jovens degustando algum drinque, e velhinhos lendo jornal, o local reúne todo mundo. Ali também acontecem esporadicamente apresentações e até cinema ao ar livre. A praça, aliás, é um ótimo lugar para entrar em contato com a cultura local, enquanto se toma um típico café ou vinho da região. E se o visitante não gosta destas duas opções, pode escolher um gelato, o saborosíssimo sorvete italiano. Até para os mais antenados, San Severino tem seu lado moderno: a praça tem wi-fi gratuito, além de várias paradas para quem joga Pokémon.

Caixinha de surpresas
Não pense que as atrações turísticas de San Severino estão assim à vista e fáceis de encontrar. Comparo a cidade como uma caixinha de surpresas, daquelas que a gente abre e vai descobrindo belezas aos poucos, como o Teatro Feronia. Quem passa distraído pela Praça do Povo pode perder esse exemplo máximo da arquitetura neoclássica. Reaberto em 1985, após mais de 20 anos de restauração, o teatro não perde em nada para as maiores e mais impressionantes casas de ópera do mundo, tamanha imponência de sua construção. São 442 lugares, acústica e infraestrutura perfeitas. E se você estiver na cidade mesmo fora da temporada de apresentações, não há problema. O edifício fica aberto para visitação e digo que realmente vale a pena apreciar essa obra de arte.

Teatro Feronia

Outro lugar interessantíssimo é a Pinacoteca Cívica (www.comune.sanseverinomarche.mc.it). O ingresso de 3 euros permite conhecer de perto obras de arte antigas típicas da região, com ênfase para arte sacra. A própria pinacoteca fica no belíssimo Palazzo Manuzzini. Outro museu que não pode ficar fora do roteiro é o Museo Arqueológico Giuseppe Moretti (www.comune.sanseverinomarche.mc.it), que homenageia o arqueólogo nascido em San Severino. No acervo, artefatos em argila, além de túmulos da necrópole de Pitino e pedras da antiga cidade romana de Septempeda que foi San Severino Marche.

Quem aprecia arte sacra deve visitar a Basílica de San Lorenzo. A mais antiga igreja da cidade abriga os restos mortais de Santa Filomena, Sant’ Ippolito e San Giustino. Foi erguida por monges bizantinos no século II, mas sofreu diversas intervenções, sendo o edifício atual, originalmente do século XIV. Em seu interior há afrescos preservados dos irmãos Salimbeni.

Imagem de santa no alto do Monte Nero parece abençoar a cidade

Um dos lugares mais lindos para avistar San Severino é o Monte Nero, onde fica, entre outras atrações, um castelo. Na antiga catedral está enterrado o corpo do mártir, São Severino. A basílica é apenas uma parte da edificação, que conta também com uma torre e um monastério. O topo pode ser alcançado a pé, mas é preciso fôlego. Após a caminhada de 40 minutos desde o Centro da cidade, o sítio tem bancos para sentar e se embasbacar tanto com a obra erguida pelo homem, quanto pela natureza. Para os antenados, mais um lugar com wi-fi gratuito.

Ópera
Ir à Itália e não assistir a uma ópera é como ir a Roma e não ver o papa. Mesmo na pacata San Severino é possível assistir tanto a um espetáculo completo no Teatro Feronia, quanto algo mais exclusivo, como uma montagem pocket em um castelo no topo de uma montanha. Escolhi a segunda opção e fui ver Aida, de Giuseppe Verdi. A montagem, do projeto Villa In Canto (www.villaincanto.eu) aconteceu no belíssimo Musei Civici di Villa Colloredo Mels, em Recanati, cidade vizinha de San Severino.

O maestro Riccardo Serenelli (ao centro) e elenco de Aida, montagem do projeto Villa In Canto

Criado pelo maestro e pianista Riccardo Serenelli, o projeto reúne cantores líricos italianos e internacionais, que apresentam árias de importantes óperas acompanhadas por piano e projeções multimídia. Após as apresentações, o público é convidado, por exemplo, a visitar a exposição do museu, nesse caso, do pintor veneziano Lorenzo Lotto, um dos maiores artistas da Itália.

Vinhos produzidos em Il Pollenza

É também impossível falar da Itália sem citar o vinho. Nas cantinas e bares de San Severino é possível provar a bebida feita das distintas uvas que crescem na região. Provei o verdicchio — vinho branco, uma espécie de parente do verde —, o passerina e o pecorino, outros dois brancos produzidos por lá. Mas para se ter uma verdadeira enoexperiência é preciso visitar a cantina Il Pollenza (www.ilpollenza.it), na cidade de Tolentino. Se é que possível chamar o lugar de cantina. Uma quinta nos arredores da cidade, a família Piccinini construiu um verdadeiro templo em homenagem a Baco, o Deus do Vinho. O complexo formado por vinhedos, fazenda e vinícola é uma vila no autêntico estilo francês de Bordeaux. Ali, o visitante pode degustar (e comprar) garrafas e até garrafões dos melhores vinhos europeus, entre pinot noir, cabernet sauvignon, franc, syrah, sauvignon blanc, além de vinhos autóctones como o maceratino, montepulciano, trebbiano e sangiovese, igualmente saborosos.

San Severino não decepciona o turista que gosta de comprar no Exterior, mas não espere grandes shoppings, afinal, estamos no Interior. Quem procura peças de marca encontra um outlet Armani (Via Merloni, 10, Macerata) na vizinha Macerata com preços interessantes para coleções anteriores e recentes. Em ambos os casos, as peças saem bem mais em conta do que nas grandes lojas da marca.

Um dos palácios de Il Pollenza

Ainda em Macerata, fazer compras é conhecer a cultura local. Às quartas e sábados, as praças do Centro se transformam em mercados ao ar livre, locais para comprar de tudo, desde roupas, calçados, até peças de decoração. A dica é se embrenhar pelas ruelas, não ter pressa e pechinchar. Há muito mais para se descobrir em San Severino. A cidade tem festival de blues e uma ativa vida cultural e estudantil. Tudo depende de paciência e olho atento. Então, descubra San Severino Marche em sua próxima viagem!

Mercado de rua em Macerata

Eduardo Gregori viajou com seguro viagem da GTA – Global Travel Assistance www.gtaassist.com.br

 

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Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista profissional especializado em turismo. Eduardo Gregori is a professional tourism journalist

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