Patagônia Norte com conforto e segurança

O Chile vem crescendo em ofertas turísticas. Depois do êxito dos destinos como o Deserto do Atacama, Torres del Paine e da Ilha de Páscoa, a Carretera Austral é o quarto diamante oferecido pelo país andino. E lança programa inédito: Nômades Patagônia Norte. O ser humano leva ainda, no íntimo do seu DNA, a vontade de explorar os cantos desconhecidos do planeta. Nossa característica original foi a de nômade, exemplo disso é que o homem trilhou do Polo Norte, cruzando o Estreito de Bering, quando este era ainda uma geleira, até a Terra do Fogo, uma gigantesca ilha que se formou após o gelo, do hoje Estreito de Magalhães, virar mar.

E foi assim que a Terra foi se povoando. Quando alguns decidiam se assentar, sempre haviam outros mais aventureiros, ou curiosos, que continuavam seu caminho de descobrimento, nessa ânsia de achar sempre, mais adiante, um lugar que facilitasse a vida, com boa terra, água, caça, pesca, frutos silvestres e, claro, uma bela paisagem. A Patagônia Norte do Chile estava, até uns vinte mil anos, coberta de gelo.

Suas paisagens são, digamos, relativamente jovens, com extensos e quase impenetráveis bosques de carvalho, montanhas de granito e extensos pampas. Essa quase desconhecida Patagônia é cruzada de extremo a extremo pela Carretera Austral, mais de 800km onde há regiões em que o Chile chega a ter exíguos 40 km de largura, comprimidos entre os Andes e o Oceano Pacífico, com a cordilheira praticamente beijando o mar.

Carretera Austral
Carretera Austral

Alguns números interessantes. Nessa região cabem uma Suíça, duas Bélgicas e é cinco vezes menor que o Pantanal brasileiro. Há 90 mil habitantes, 1,8 milhão de ovelhas e 950 mil cabeças de gado. Há 4,8 mil rios, mais de dois mil lagos e lagoas, 1,2 mil ilhas e 28 geleiras. É um destino perfeito para quem ama a natureza, curte a pesca esportiva de truta e salmão, e deseja gozar a tranquilidade que brinda o estar quase desconectado do mundo. Sim, porque no local só há sinal de celular nos povoados e, entre eles, quilômetros e mais quilômetros onde a maior comunicação é só com a própria natureza.

Sem preocupação
Até agora, essa Patagônia só podia ser descoberta em veículo próprio, não há ônibus que faça o percurso inteiro. Percorrê-la por conta própria é um bom desafio, não porque a estrada seja perigosa ou ruim, mas porque a logística precisa ser muito bem planejada e o piloto bom e experiente em estradas de terra e cascalho. É uma espécie de rally pessoal, onde os tempos entre povoado e povoado, e claro, as paradas para admirar a paisagem, devem calçar perfeitamente. Caso contrário, os viajantes vão dormir no carro.

Passeio de barcos em um lago patogênico

Mas fazer o que lá, se perguntará o caro leitor. Bem, a resposta pode ser como a do Sir Edmund Hillary, quando lhe perguntaram sua razão de subir o Everest: “Porque está lá…” A Carretera Austral tem muitos mais atrativos que subir nessa mítica montanha, com muitíssimos menos riscos e centenas de paisagens tão variadas quanto belas. E não pense que a região e só frio e neve. Na Primavera e Verão costuma fazer calor, até 30 graus, a ponto de querer entrar nos muitos lagos e cachoeiras que há nessas paragens.
A Patagônia Norte não deixa de ser um destino surpreendente. Então, para quem deseja percorrer o destino sem ser por conta própria, é que nasceu o programa, o Nômades Patagônia Norte, especialmente dirigido para aquelas pessoas que gostam de acampar e desejam conhecer a região sem a preocupação de dirigir, podendo assim comer sem ter que deixar de beber um bom vinho chileno por estar no volante, ou estar sempre de olho no mapa e adivinhar que lugares de interesse visitar.

Os passageiros do Nômades Patagônia Norte fazem o percurso de van, tendo durante todo o trajeto um acampamento móvel, que oferece acomodação em barracas, veículo de apoio e equipe que se encarrega de armar acampamento, cozinhar e ter tudo pronto quando você chega ao lugar escolhido.O passageiro não precisa carregar nada, salvo se quiser levar o próprio saco de dormir e seus aparelhos de pesca, embora isso possa ser providenciado caso deseje pescar e não possua equipamento.

Na estrada entre rios, lagos e geleiras
A viagem começa em Puerto Montt, a mil quilômetros de Santiago, capital do Chile. É ali que nasce a Carretera Austral e suas paisagens cativantes. Altas montanhas cobertas por vegetação nativa, principalmente o coigue, a lenga, e o nirre, todas da família do carvalho. A primeira parte mistura estrada com viagem pelos canais austrais, em barcaça. Assim, se conhecem lugares como Caleta La Arena, Puelche, Hornopirén e Caleta Gonzalo, chegando até a pequena cidade de Chaitén, povoado reconstruído após a erupção do vulcão do mesmo nome, em 2008. Desde aí se faz a visita até as Termas del Amarillo, entre as montanhas andinas e a selva patagônica. Depois de um bom banho nas quentes águas, nada melhor que um delicioso vinho ao redor de uma fogueira, no meio da paisagem solitária. Quem desejar pescar, o Rio Palena oferece a possibilidade de fisgar belíssimas trutas.

Geleira San Rafael

A construção da Carretera Austral se iniciou em 1976. A ideia era unir povoados isolados e brindar possibilidades de desenvolvimento. Até esse momento era difícil morar nessas terras. Uma simples visita ao dentista obrigava o morador a pegar o cavalo e encarar quatro ou cinco dias até o povoado mais próximo, que tivesse algum tipo de assistência médica. Nos anos 1970 ainda era muito comum que as mães tivessem seus filhos em casa, sozinhas, com ajuda dos vizinhos ou, com sorte, de uma parteira. A colonização na região se iniciou lá por 1898, e se hoje a densidade demográfica da Patagônia Norte é de 0,9 habitante por quilômetro quadrado, dá para imaginar o que era há uns cem anos atrás.
Um exemplo básico. Só a partir dos anos 1970 os povoados puderam ter uma maior infraestrutura, como pronto-socorro, luz de gerador, telefone e comércio elementar. É bom lembrar que o homem chegou à lua em 1969, e nessa região ninguém ficou sabendo até algum tempo depois.

Eduardo Gregori na Laguna San Rafael
Eduardo Gregori na Laguna San Rafael

Essa viagem permite também conhecer lugares que até os próprios chilenos desconhecem, como o povoado de Raul Marin Balmaceda, na orla do Pacífico. A operação de chegada é muito especial, se navegam 30km nas águas cor turquesa do rio Palena, admirando sua flora e a fantástica paisagem do entorno. De tarde, se chega à Cascada Bonita, levantando acampamento na orla da praia. A esse lugar só se pode chegar pelo rio, portanto, o grupo de viajantes está na solidão patagônica”, onde terá oportunidade de ver algo quase esquecido, um céu coalhado de estrelas, como dificilmente se tem oportunidade de observar e admirar.
No outro dia se faz uma pequena caminhada até Raul Marin Balmaceda, há um trekking pela Trilha do Chucao, pássaro símbolo da patagônia, assim como um passeio de caiaque e uma jornada de pesca.
Aquecimento global. A viagem continua pela orla de rios e lagos, sempre com as altas montanhas do lado Leste. Quase não há povoados em longos trechos da estrada, só a imponente natureza e algumas pequenas vilas, como Puyuhuapi, encravada no fundo de um fiorde rodeado de verdejantes montanhas. Um pouco além se chega ao parque nacional Queulat e pode-se ter uma clara e impactante ideia da mudança que está sofrendo o planeta por causa do efeito estufa. A geleira Queulat se distingue no alto da montanha, e a monumental cascata mostra sua rápida desintegração pelo calor.

Pesca de truta no Norte da Patagônia

No pequeno salão de visitas há fotos dos anos 1960 onde a geleira está ainda no lago ou leito do glacial. Ou seja, você estará pisando um solo que há poucos anos estava coberto pelo gelo da última glaciação do planeta e a vegetação que observa é primitivíssima. Uns cinco a dez centímetros de capa vegetal e embaixo rocha pura. Depois de cruzar a Serra Queulat, por uma estrada de paisagens indescritíveis, se chega ao potente Rio Cisnes.

No caminho sempre há um cantinho para fotografias, um lanche, e um relax no meio da paz que proporciona a paisagem nativa. Em todas as paradas que se têm perto de rios e lagos, há tempo para tentar a sorte e, quem sabe, capturar alguma truta ou salmão, que o chef do acampamento prepara. E ainda há bastante que percorrer e conhecer, como o Lago Las Torres, o descanso no rio Mañihuales, a caminhada à procura do veado vermelho na Ilha Carmen, o passeio pela cidade de Aysén e Coyhaique, a capital da região, o caiaque no cristalino Lago Los Palos e a visita ao Poço das Trutas.

Cordeiro patogênico assado no chão

O programa Nômades Patagônia Norte é uma viagem para fazer com amigos, em família ou sozinho, especialmente desenhada para quem gosta de camping, mas não quer ter aquele transtorno de ter que carregar barracas, lanternas, fogão, grelha, talheres, pratos, e tanta coisa necessária para que a viagem não seja uma chateação ou, pior, um pesadelo. Nesse programa o turista chega ao acampamento e ele já estará instalado e pronto, com coquetel e petiscos à espera. Uma equipe sempre vai horas adiante da van dos passageiros, direto ao lugar já definido. E, muito importante, os grupos são só de, no máximo, 12 pessoas. Quem desejar fazer um grupo exclusivo para, por exemplo, pesca esportiva, observação de aves, geologia, biologia, astronomia, etc., a operadora chilena o organiza até nos mínimos detalhes, sem custo adicional.

Informação: atexpatagonia@gmail.com

Eduardo Gregori

Sou jornalista, viajo profissionalmente e por prazer. Também sou cantor e DJ. I am a journalist and a profesional and leisure traveller. I also sing in weddings and DJ

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