Alemanha mantém vivas suas tradições

Do avião vejo Frankfurt. Lá de cima, o mar de arranha-céus e avenidas salpicadas de veículos me fazem lembrar que estou prestes a descer em um dos maiores aeroportos do mundo. E Frankfurt sempre me deixa tenso, principalmente quando tenho que tomar um voo logo em seguida. Passadeiras rolantes quase que intermináveis conectam portões e ligam o principal hub da Europa a todos os cantos do mundo. A superlatividade do terminal representa uma Alemanha voltada para um futuro pautado, principalmente pela tecnologia e o bem-estar social. Não é à toa que o país seja a engrenagem econômica da comunidade europeia e a nação mais desenvolvida (e rica) do Velho continente.

Tenho menos de uma hora para cruzar corredores gigantescos, passar por um posto de controle imigratório e outro de controle para reembarcar. Corro para não perder o voo com destino a Berlim. Antes de pousar, posso ver da janela um cenário completamente diferente: casas e muito verde. “Sim, estamos chegando a Capital da Alemanha”, penso eu, com uma estranheza de quem não esperaria ver senão, outro mar de edifícios e avenidas congestionadas. Mas Berlim, apesar de cosmopolita, é a porta de entrada para uma Alemanha que, apesar de moderna, não pensa em esquecer suas tradições e valores culturais.

Aliás, faz questão de mantê-los vivos para seu povo e para pessoas como o eu, um grão de areia em um mar de turistas que desembarcam no país todos os dias. Se a visão da janela do avião antecipava a bela cidade onde ia pousar, ao desembarcar, os poucos passos entre a saída da aeronave e o saguão do minúsculo Berlin Tegel Airport, só confirmam a sensação de chegar a um lugar aconchegante. Talvez por este sentimento tão particular, o turista não se importe muito com atraso do Berlin-Brandemburg, aeroporto em Schönefeld, a 18 quilômetros de Berlim, cujas obras se arrastam desde 2006, e sem previsão de inauguração. Mas Berlim é assunto para outra reportagem. O que vim fazer na Alemanha? Me desconectar de um mundo cada dia mais plugado, no qual 24 horas parecem minutos.

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A cidadezinha de Lübennau

Peguei a estrada em direção Spreewald, região a apenas 100 quilômetros de Berlim, mas que, pela força de suas tradições, parece estar a milhares de quilômetros Interior adentro e, em um tempo diferente de 2015. Spreewald é uma região de várzea, basicamente uma mata entrecortada por canais. Mas o leitor pode me perguntar: Sair do Brasil para passear por uma várzea? E por que não? Principalmente quando o lugar, além de sua beleza natural – declarada pela Unesco como reserva da biosfera -, promove experiências inesquecíveis a quem se aventura entre seus mais de 100 quilômetros de cursos de água. Tudo começa com um passeio de canoa pelos canais. A sensação é de desbravar um lugar desabitado por seres humanos. O silêncio só é quebrado pelas aves que passam calmamente ao lado da embarcação, ou pelos ariscos castores, que nadam apressadamente e param para observar a quem ousa invadir o seu território.

O passeio é de contemplação e vale cada segundo. Deslizando calmamente pela correnteza, os olhos são invadidos pelo intenso verde da mata, pelas cores das flores que hora brotam do solo fértil, hora decoram choupanas rústicas. E se bater a fome, o barco vem abastecido com iguarias como o pepino, típico da região, além de pão e uma verdadeira carta de bebidas, que incluem vinho, espumante, cervejas, sucos e refrigerantes. Se a temperatura cair, o gondoleiro trata de oferecer cobertas. Basta se cobrir e, se quiser seguir percurso deitadinho, não esqueça de olhar para cima e se encantar com as copas das árvores.

Quer comer algo a mais? Pare em um dos vários restaurantes erguidos às margens do canal. Não quer mais pepino? Tudo bem, comece pela sopa de abóbora, quente ou fria, acompanhada de pão, uma delícia. Avance no menu com a tradicional comida alemã com seus salsichões e muita mostarda, ou varie, com uma massa bem italiana, ou ainda peixes de águas frias. A refeição não pode deixar de ser acompanhada de um bom vinho. Esqueça a enochatice da tal harmonização e peça aquele que mais te apetece: branco mais suave ou um tinto encorpado. Quem não gosta (ou não pode) beber álcool, pode optar por sucos e refrigerantes.

Esplendor feminino
Uma das características de Sprewald é ter se tornado a terra dos sorábios. Este povo eslavo se espalhou pelos estados alemães da Saxônia e Brandemburgo. Apesar de pequeno, lutam com todas as forças para manter suas tradições, que englobam, antes de tudo, a língua e os trajes, este último, um dos mais belos e cheios de significados. As mulheres da sociedade sorábica podiam ser distinguidas pelos formatos de seus lenços na cabeça. Cada tipo revelava a região de onde vinha, além das cores presentes em suas roupas mostrarem seu estado civil. Um exemplo: solteiras usavam saias vermelhas, enquanto o verde era para mulheres casadas. Ao contrário do branco, usado principalmente para cerimônias religiosas, homens e mulheres sorábicos usavam preto, tanto para casamentos, quanto para irem à igreja em dia de missa.

Para descobrir mais sobre as tradições sorábicas, fui ao encontro de Christa Dziumbla, uma senhora que mantém uma espécie de ateliê. Ali, rodeada pela mata e quase que afastada do mundo moderno, ela costura trajes típicos, ainda usados em festas da comunidade sorábica. Na parede, ostenta orgulhosamente imagens de mulheres (incluindo ela) que até hoje se vestem com suas saias e blusas bordadas delicadamente à mão e lenços, cuidadosamente decorados com motivos florais. Uma foto se destaca: um casamento coletivo, realizado em 2014 com as vestes do seu povo. Entre agulhas e manequins, ela explica que as mulheres sorábicas são muito femininas e vaidosas e para ela, é um honra manter viva a tradição. Ela conta que herdou o dom da costura de sua mãe, e que pretende passa-lo adiante. Um lugar para conhecer a fundo a história dos sorábicos é a Lodka Sorben (www.lodka.sorben.com) na simpática cidadezinha de Cottbus. A casa mantém um vasto acervo de trajes, literatura, memorabilia e até artefatos deste povo. No saguão, ainda é possível comprar umas lembrancinhas, entre elas delicadas pêssankas, ovos de Páscoa decorados, presentes também nas tradições ucranianas.

Terra do pepino e da boa bebida

Pensar na comida alemã é ter em mente salsichão, joelho de porco e muito repolho cozido. Mas em Spreewald, o pepino é a principal atração gastronômica. Outra tradição sorábica, o vegetal tem, no vilarejo de Lehde, um museu inteiramente dedicado a ele. O Museu do Pepino se dedica a promover todas as atividades ligadas ao vegetal, desde o plantio, sua distribuição dentro e fora da Alemanha, e até o concurso da rainha do pepino, que elege anualmente a mais bela jovem sorábica, responsável por apresentar ao júri a melhor receita feita com pepino. O museu vem garimpando estas receitas para a publicação de um livro, no qual revelará os segredos gastronômicos elaborados pelas famílias da região. A visitação também oferece degustação do vegetal, entre eles o pepino real, uma iguaria deliciosa quando temperada à moda sorábica.

Louças típicas alemãs produzidas na região de Spreewald

O culto ao pepino é tão forte em Spreewald, que o vegetal conta também com um roteiro conhecido como Ciclovia do Pepino. São 260 quilômetros de percurso que passa por propriedades produtoras. Além de degustar, é possível comprar pepinos em conserva, temperados com mostarda, alho, vinagre e até pimenta. Uma dica: não deixe de fazer este passeio. A bicicleta aproxima ainda mais o turista das belezas que povoam o circuito, além de ajudar para queimar algumas calorias adquiridas durante a viagem.

Na rota do pepino fica Lübbenau, cidadezinha histórica muito aconchegante. Foi lá que o picles foi inventado e por isso, tudo gira em função da iguaria. Bares e restaurantes têm cardápios dedicados ao vegetal, marinado nos mais diversos temperos. Mas Lübbenau não é apenas a capital do pepino. A cidade deve ser explorar a pé. Charmosa, é dona de becos pitorescos, onde há lojinhas de suverines e decoração, além de cafés incríveis para sentar e simplesmente apreciar a paisagem em volta. Na caminhada, não deixe de fora uma visita à imponente igreja de São Nicolau, que fica bem em frente a uma praça repleta de restaurantes, um ótimo lugar para ver e ser visto. Um pouco mais adiante fica o Spreewald-Museum, que conta a história do município, além de abrigar peças interessantes, que vão de pinturas históricas a uma locomotiva a vapor, responsável, há muito tempo, por conectar Berlim até a região.

Difícil estar nessa parte da Alemanha e não se conectar, a cada passeio, diretamente à história sorábica, tão presente em cada lugar. E em Lübbenau fica o Freilandmuseum Lehde, o mais antigo museu a céu aberto da Alemanha. O sítio é uma vila em escala real, que reproduz os costumes dos habitantes, quando se estabeleceram ali. A visita é guiada por mulheres vestidas em trajes sorábicos, e que sempre trazem um sorriso no rosto. O tour passa por construções que mostram o cotidiano do povo do campo, com casas erguidas em madeira maciça e adequadas ao frio rigoroso. Brinquedos, utensílios domésticos, roupas e mobília trazem à visita, uma maior proximidade com os costumes da época. Não deixe de ir.

Passeio de canoa pelos canais de Spreewald

E no meio de tanta cultura e história sorábica, me deparei com um lugarzinho especial, principalmente para mim, mineiro e confesso viciado em café. Apesar da bebida não ser tão forte quanto a nossa, o café servido na destilaria Burger Hofbrennerei cai tão bem quanto o brasileiro. Imagine-se, rodeado por fauna e flora e, como uma miragem, encontrar no meio do caminho, uma casa charmosa, daquelas que o proprietário fica na soleira da porta para receber seus clientes.

Antes do café, um passeio pela destilaria para conhecer os tonéis onde licores, uísques e outros destilados descansam até ficarem prontinhos para o consumo. Dali, um pulo em outra parte da edificação para ver de perto o processo de fermentação e engarrafamento. E ainda, antes do café, para aguçar o paladar, provo um licor. Há de todos os sabores; desde os mais delicados e suaves, que, enquanto descem garganta abaixo, invadem o nariz com fragrâncias amadeiradas, até os mais graduados, com gosto e álcool intensos e perfumados por frutas típicas. No fim, um cafezinho no jardim, além de um bom bate-papo com o proprietário. E, antes de ir embora, a dica é levar para a casa um licor, vendido em dois tamanhos e a preços bem em conta.

Onde ficar
Se Spreewald é uma terra de exaltação às tradições de seu povo, nada melhor que ficar em um local que também tenha orgulho e honre o passado. O Bleiche Resort & Spa manteve aspectos da antiga propriedade que clareava (bleiche, em alemão) tecidos e couro. O resort é um verdadeiro refúgio. A começar pela internet, que só está disponível no saguão. A proposta é manter os hóspedes longe do contato intoxicante da tecnologia.

Decorado como uma grande casa de campo, o Bleiche proporciona experiências sensoriais que estão presentes em detalhes, como música que só pode ser ouvida abaixo da linha de água da piscina, ou ainda gastronômicas, com pratos cuidadosamente elaborados pelos chefs dos variados restaurantes. Em um deles, é possível observar de perto chef e sua brigada trabalhando e ser servido diretamente pelo maestro. Se hospedar no Bleiche é esquecer hotéis ruidosos, com gente correndo de lá pra cá, falando alto e gesticulando muito. Tanto o staff, quanto os próprios hóspedes, seguem uma espécie de protocolo próprio, onde o relaxamento comanda e harmoniza.

Como chegar
A viagem a Spreewald pode ser incluída em um roteiro para Frankfurt ou Berlim. Há um trem de Berlim a Lübben (45 minutos de viagem), mas a melhor maneira de chegar ao destino é pela estrada, e como aluguel de carro é bem barato – apesar da cotação do Euro -, na Alemanha, a dica é pegar um carro diretamente no Berlin Tegel Airport e seguir 100 quilômetros pela famosa autoban. De Berlim, siga pela rodovia A113 em direção Sul. Em Schönefelder Kreuz, entre na rodovia A13 em direção a Dresden. Deixe a A13 na saída de Lübben or Lübbenau e continue para Dreieck Spreewald (junção das rodovias A13 and A15) e então, na A15 em direção a Vetschau. Deixe a A15 e na saída de Vetschau continue para Burg.

De trem: Pegue o trem regional (que parte a cada uma hora) RE2 para Lübben ou Lübbenau, nas estações Zoologischer Garten, Hauptbahnhof, Friedrichstraße, Alexanderplatz ou Ostbahnhof. Alguns hotéis em Burg oferecem serviço de transfers da estação em Vetschau.

Galeria de fotos de Spreewald

Endereços úteis

– Bleiche Resort & Spa – www.bleiche.de

– Wendisches Museum – www.wendisches-museum.de

– Freilandmuseum Lehde – www.museum-osl.de

– Gukernmuseum – www.spreewald-starick.de

– Spreewald-Museum Lübbenau http://museum-kreis-osl.de

– Studio Franzka + Ascher – http://hirnflug.de

–  Destilaria Burger Hofbrennerei – http://sagengeister.de/

–  Moinho Straupitzer Mühle – www.windmuehle-straupitz.de

– Trachtenstickerei Dziumbia – www.trachtenstickerei.de

–  Großen Spreewaldhafen –  Dammstraße 77a,  Lübbenau
Fone: +49 (0) 3542-2225

Eduardo Gregori

Sou jornalista, viajo profissionalmente e por prazer. Também sou cantor e DJ. I am a journalist and a profesional and leisure traveller. I also sing in weddings and DJ

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