Skorpios III: Em casa, no fim do mundo

O Chile pode ser um país pequeno e espremido entre os Andes e o Oceano Pacífico. Porém, sua biodiversidade é tão grandiosa que, para conhecer apenas uma pequena parte de seu território, é preciso voltar e voltar e voltar. E retornar distintas vezes à nação que habita o outro lado da cordilheira é como descobrir um Chile diferente. Seja o Norte e seu árido e onipresente Deserto do Atacama de um lado, e de outro as águas cálidas do Pacífico em Antofagasta, seja a moderna e cosmopolita Santiago, as praianas Viña del Mar, La Serena e a histórica Valparaíso, no centro do país, ou ainda o Sul, sitiado pela vastidão da Patagônia e sua beleza rústica quase que intocada pelo homem. Cada parte do Chile é assim, única. Entre idas e vindas lá se vão dez anos de Norte a Sul.

Minha incursão na parte Sul começou há exatos oito anos, quando peguei o Skorpios II pela primeira vez rumo a Laguna San Rafael. Voltei outras vezes, percorrendo a Carretera Austral, tema de outra reportagem aqui no Turismo há dois anos. Talvez, o mais incrível do Chile, seja a vontade de continuar seguindo viagem e isso me levou ao Skorpios III, cruzeiro que mais se aproxima da Antártica, bem pertinho do fim da América do Sul. A aventura começa na cidade de Punta Arenas, lugar mais distante (e ao Sul) do Chile, onde é possível chegar em um avião comercial. Dali pra baixo só de barco, ônibus ou de carro. Porém, antes de embarcar, vale lembrar que a viagem é longa. Para quem parte de Campinas, leva uma hora e meia até o Aeroporto de Guarulhos (com o trânsito fluindo), mais quatro de voo até Santiago, outras três (no mínimo) de espera pela conexão, mais três de voo até Punta Arenas e finalmente mais três de carro até Puerto Natales, onde fica o porto do Skorpios III. Ao total, são quase 15 horas de viagem, o mesmo tempo de um voo entre Santiago e Sydney, na Austrália. Vale a pena? Sim, cada minuto.

Agostura White

O ideal — para não cansar tanto e aproveitar mais a viagem — é dividir a viagem ao meio. Para quem não conhece Santiago, a cidade é linda e há diversos tours com temáticas histórica, gastronômica ou enófila. Para conhecer um pouco do que Santiago tem de bom, acesse http://correio.rac.com.br/turismo. No canal de Turismo do Correio.com há diversas reportagens sobre a capital chilena e com distintas abordagens. Após um par de dias em Santiago, é hora de rumar ao Sul ao encontro do Skorpios III. Diferente da Carretera Austral, cujo percurso é feito de carro em meio à natureza nua e crua, o Skorpios percorre geleiras, fiordes e canais, porém, de um ponto de vista totalmente distinto: as águas geladas comuns nessa parte do país.

Mas estar em Puerto Natales e não visitar o Parque Nacional Torres Del Paine é como ir a Roma e não ver o papa. Por isso, o roteiro pode começar antes mesmo de sair navegando. O Skorpios disponibiliza um pacote que inclui um dia inteiro de visita ao parque e suas imponentes formações rochosas. O passeio em grupo é de contemplação. No meio do caminho, paradas estratégicas em mirantes para fotos e observação de rochas recobertas de neves eternas que mais parecem obras de arte majestosamente esculpidas pela natureza. No meio do caminho, o almoço é no hotel Rio Serrano (www.hotelrioserrano.cl/pt-br), na área particular do parque. Aproveite, após a refeição, para sentar na parte exterior do lobby, tomar um café e vislumbrar ali, bem diante dos olhos, as torres que se elevam imponentemente no horizonte. Pela estrada, uma parada na cueva del milodón (caverna do milondón), uma formação rochosa que há milhares de anos estava sob a água congelada do mar e que, com o passar do tempo, foi perdendo gelo e sendo escavada em um processo de erosão. Hoje, é como uma gruta, ou uma gigante catedral natural. O lugar foi habitado pelo tal milondón, uma espécie de bicho-preguiça gigante. Aproveite para fazer uma divertida foto com a réplica do animal, construída em tamanho natural e exposta bem no meio da caverna. No caminho de volta ao transporte, não deixe de tirar fotos. Mire o horizonte e encontrará outras várias montanhas, além de uma mata verdejante que rodeia a caverna.

Veja a galeria de fotos do Skorpios III

O primeiro dia na rota Kaweskar do Skorpios III começa ao final da tarde. Enquanto a tripulação passa as informações de segurança, o barco singra entre os canais patagônicos de Angostura Kirke, Mora Vicuña, Unión Collingwood y Sarmiento. O dia também é para se ambientar, conhecer a embarcação e socializar com tripulantes e passageiros. Serão três dias no mar, então a dica é: durma bem e descanse, pois os dois dias seguintes serão intensos em todos os sentidos. A primeira parada acontece às 8h, em frente a geleira Amalia. O desembarque é feito em botes que vão até a areia. Da praia, uma caminhada de aproximadamente 20 minutos nos leva direto à parede de gelo, que com a luz do dia, ganha tons azulados. O passeio dura em média, uma hora e meia, tempo suficiente para apreciar a indescritível obra da natureza, tirar muitas fotos e assistir a espetaculares desprendimentos de gelo. De volta, o Skorpios III ruma para a geleira El Brujo. Talvez esse seja o ápice para quem quer ter um contato mais íntimo com uma geleira. É possível desembarcar e subir em uma rocha e tocar o gelo. Depois de um contato tão próximo, sente na pedra e aprecie a paisagem e torça para que blocos caiam. É um dos espetáculos naturais mais fascinantes do mundo. Mais tarde, o Skorpios oferece um passeio de barco no Fiorde Calvo, onde é possível observar as geleiras Capitán Constantino e Alipio, que homenageiam o primeiro comandante do Skorpios e o jornalista chileno que mais promoveu a Patagônia para o mundo. O caminho é entre pequenos icebergs e a sensação é que o barco vai bater nas pedras geladas e afundar. Se está frio do lado de fora, dentro, a adrenalina faz suar.

Cabine do Skorpios III no piso Athos, Suite Junior, cama Queen

Mas não se preocupe, apesar da água cravejada de gelo e dos solavancos, o passeio é presenteado pelos massivos blocos de gelo e por uma inesperada cachoeira. Do Fiorde Calvo partimos para o Fiorde das Montanhas, lugar que abriga nada menos que quatro geleiras. Todas podem ser avistadas do barco, mas o desembarque só é possível em duas delas. Na primeira, a Alsina, os botes do Skorpios III percorrem a baía e é possível apreciar de perto a grandeza do glacial, cercado por gigantescas montanhas e águas. Após uma hora percorrendo a baía, voltamos para o navio e continuamos o passeio rumo à geleira Bernal. O lugar é outra oportunidade de se estar junto à natureza.Prepare-se para caminhar nessa etapa. Logo no desembarque, passamos por um bosque que abriga uma singela lagoa de água glacial e caminhando um pouco mais, encontramos a geleira bem de frente. Esse passeio também permite tocar o gelo.

Sob os cuidados de dona Mimi
O comandante do Skorpios III é Luis Kochifas. Trinta e sete anos de experiência no mar, cinco deles dedicados à rota que parte de Puerto Natales, em mais de 120 viagens até o momento. Os outros 32 anos e mais de 700 viagens aconteceram no Skorpios II, mais ao Norte, e que vista a geleira de San Rafael. Convidado à sua mesa, me conta que cresceu praticamente a bordo e seguiu os passos do pai, o comandante Constantino, cuja história é fortemente marcada pelo desbravar das gélidas águas patagônicas. O Skorpios é a única linha de cruzeiros a explorar o Sul do Chile em uma história que começou em 1978. “Quando eu era criança e desaparecia de casa, meus pais iam me encontrar no cais, dentro de um bote. Meu sonho sempre foi ser marinheiro”, conta. E emenda que é feliz cumprindo o que um dia sonhou. “Há três coisas que fazem de cada viagem uma história diferente: o clima, as pessoas e as geleiras. Essas três mudam sempre e é isso que me motiva estar no mar. Se uma viagem fosse apenas o caminho e as refeições — que são sempre os mesmos —, eu já estaria enfadado”, conta com o brilho nos olhos de quem parte para o mar pela primeira vez.

Comandante Constantino e dona Mimi durante cruzeiro

Mas se don Luis está ocupado na ponte, levando o Skorpios III graciosamente entre fiordes e canais estreitos, e quase sempre salpicados de blocos de gelo, é dona Mimi quem verdadeiramente está no comando da embarcação. A matriarca do Skorpios, viúva do comandante Constantino, trata de cuidar de seus passageiros como uma zelosa mãe olha suas crias. No primeiro dia, ainda no café da manhã, a avisto correndo de um lado para outro. Ela checa se o bufê está abastecido e se a mesa central está arrumada de acordo. Passa por mim e pergunta: “você é do Brasil, não? Seja bem-vindo. Eu adoro os brasileiros”. Eu lhe digo que gostaria que ela me contasse algumas histórias interessantes do Skorpios. Preocupada com seus passageiros, me responde: “Me perdoe, estou muito ocupada. Tenho tantas histórias para lhe contar que levaria mais de uma viagem”, e ri divertidamente. Promete falar comigo em uma outra oportunidade e sai quase que correndo de volta ao seu cuidadoso trabalho.

No caminho, cumprimenta todos os passageiros com um sorriso no rosto e um inevitável “Buen dia”. Se na hora das refeições é possível vê-la desfilando apressadamente pelo salão, é no trabalho cotidiano do navio que ela atua bravamente nos bastidores. A qualidade da limpeza dos quartos, do café e drinques servidos nos bares, e até a forma com que os funcionários devem se referir aos passageiros, tudo tem o dedo dela. E suas instruções são seguidas à risca, como as ordens de um comandante devem ser obedecidas pelos marinheiros. O garçom de nossa mesa nos dá bom dia, nos deseja boa noite e nos chama pelo nome, sempre. Alguma dúvida sobre o respeito que dona Mimi tem da tripulação? Para mim, nenhuma.

À noite, o comandante dá as boas-vindas no primeiro jantar oficial do cruzeiro e fala com orgulho de seu pai e seu amor pelo mar e pelo Skorpios. Em seu lugar de honra na mesa principal, a matriarca abaixa a cabeça como em uma oração pelo marido, que morreu a bordo há pouco mais de cinco anos. E se emociona, tentando evitar que os demais percebam; uma cena tocante. No outro dia, após o almoço, mais relaxada e apreciando a navegação, ainda na mesa a interpelo: “Qual a história mais interessante a senhora se lembra em tantos anos de Skorpios?” Ela ri e me diz: “Nosso primeiro barco, que era de madeira, bateu. Estávamos lotados e os tripulantes ficaram apreensivos do que poderia acontecer. Subi correndo até o deck e vi que haviam árvores de um lado e de outro das margens e lhes disse ‘estamos na praia, não há problema’, com toda a calma e claro, não aconteceu nada de grave”, lembra orgulhosa.

Luis Kochifas, comandante do Skorpios III: cresceu dentro do navio

Aliás, desde 1978, nunca houve acidentes com as embarcações do grupo Skorpios e nem com os passageiros. E assim é o espírito dessa companhia familiar, uma mescla do desbravador Constantino com o aconchego de casa que só dona Mimi sabe dar. Talvez, por isso, os dois Skorpios atraiam tanto e o público é bem distinto, desde a terceira idade, casais que viajam com seus pais ou filhos maiores e jovens. Não vi crianças. Talvez o frio, ou o extremo da Patagônia, não sejam lá tão adequados para elas. Além disso, o Skorpios é como uma Babel; europeus, asiáticos, norte-americanos, sul-americanos: gente de todo o mundo chega de longe e de perto para se deslumbrar com um cenário que só a natureza soube moldar no Sul do Chile. E de quebra, com a companhia graciosa de dona Mimi, do comandante Luis e de sua tripulação. Da vontade de voltar? Sim, afinal, como disse o comandante, a Patagônia está em constante mudança. Então, cada viagem será única.

Saiba mais
Preço: De US$ 1.915 a US$ 2.525 por pessoa
Temporada: De outubro a março
Informação: www.skorpios.cl

Parada em Santiago

Quatro no Hotel Cumbres Lastarria, em Santiago

Se você pretende dar uma paradinha em Santiago, antes ou depois do Skorpios, uma dica é o Hotel Cumbres – Lastarria. Além de confortável, o hotel fica no bairro Lastarria, um dos mais culturais e gastronômicos da capital chilena. O hotel fica perto de tudo, desde o Cerro Santa Lucia à margem do Rio Mapocho, lugar incrível para caminhar e conhecer cada pedacinho da cidade. O restaurante Punto Ocho, um dos melhores de Santiago, tem uma pegada mediterrânea e moderna. Comandado pelo chef francês Michel Sèyve, o restaurante propõe uma viagem pelos sabores que rodeiam o Mar Mediterrâneo onde se destacam ingredientes como azeitonas, queijos, carnes, peixes e massa fresca. Um serviço incrível que o hotel oferece é o Cumbres Bicycle, que facilita o acesso dos hóspedes ao Bike Santiago, sistema de transporte público com bicicletas de alta tecnologia. De bike, o hóspede pode conhecer alguns pontos turísticos próximos do hotel.

Informação: www.cumbreslastarria.cl

Eduardo Gregori

Sou jornalista, viajo profissionalmente e por prazer. Também sou cantor e DJ. I am a journalist and a profesional and leisure traveller. I also sing in weddings and DJ

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